Meu conhecimento sobre a Amazônia era muito limitado, decorrente dos ensinamentos superficiais e até mesmo fantasiosos das nossas aulas e livros do ginasial e das viagens imaginativas nas cores dos mapas dos atlas geográficos. No início dos anos 70’, entretanto, dois acontecimentos fizeram ampliar minha visualização sobre a região norte do país.
Primeiro foram as muitas grandiosas, coloridas e ufanistas reportagens nas principais revistais e jornais brasileiros abordando a construção da rodovia Transamazônica, mega obra de engenharia e de propaganda da ditadura militar. Lembro de chamamentos de matérias como “Aqui vencemos a floresta”; “A Amazônia já era”; “Necessário destruir a floresta para ocupar o vazio demográfico”; “Inferno Verde já era!” “A luta contra a selva” e “Chega de lendas, vamos faturar” (1). Transportando para os dias atuais, todas essas manchetes seriam consideradas absurdas e, até mesmo, criminosas, mesmo que ainda defendidas e praticadas por extremistas neoliberais e negacionistas ambientais.
O segundo acontecimento foi, para mim, mais marcante. Meu irmão, Omar, formado em técnico de estradas, foi trabalhar na construção da Transamazônica, no eixo que abrangia Itaituba, a vila de Miritituba e Altamira. Ficamos, a família, apreensivos e sempre na expectativa de notícias de Omar nessa grandiosa missão profissional. Os informes vinham de esporádicas cartas contidas no malote da empresa e na comunicação via rádios amadores. Foi uma importante experiência para meu irmão, mas que foi interrompida pelo contágio de tuberculose. Omar voltou para casa e, muito bem cuidado, ficou recuperado e, passando no vestibular, formou-se em engenharia civil.
Omar, nas nossas longas conversas, foi o meu primeiro capacitado mestre sobre as características, particularidades, dificuldades e mistérios amazônicos.

Quatro anos após a odisseia de Omar na Transamazônica, eu concluí o curso de técnico de mineração e fui estagiar, coincidentemente, na mesma região que meu irmão trabalhou. Nosso acampamento base (Tango Sierra) se localizava na beira da rodovia Transamazônica e eu participava de trabalhos de levantamentos topográficos de igarapés e amostragens de sedimentos de corrente entre as cidades de Altamira e Itaituba. Passei diversas vezes ao lado do antigo acampamento da empresa que Omar trabalhava, localizado perto da vila Miritituba, que os peões e especialmente os colonos apelidavam de “Miritifome”.
Constatei rapidamente, andando na Transamazônica, as diferenças abissais entre as belas estampas e palavras das reportagens das revistas e a dura e cruel realidade amazônica. Sem ainda ter uma consciência ambiental, presenciei as diferentes dores, dificuldades, ilusões e desesperanças humanas.
A Transamazônicas, que os peões e colonos muitas vezes se referia como “Transamargura”, deu alguns dos meus primeiros ensinamentos políticos práticos e definitivos.
(1) https://quatrocincoum.folha.uol.com.br/br/galerias/a-ofensiva-da-ditadura-militar-contra-a-amazonia









