UFRN celebra 50 anos do curso de Geologia com emoção, memórias e projeções para o futuro

A instituição ajudou a escrever capítulos fundamentais da geociência brasileira, inclusive na região de Carajás, no Pará, onde atuaram e atuam geólogos formados na UFRN.

Entre os dias 27 e 29 de agosto, em Natal, o auditório do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) foi palco de um momento histórico: a comemoração pelos 50 anos do curso de Geologia da instituição. Foram três dias de palestras, homenagens e reencontros que emocionaram professores, alunos e egressos de diferentes gerações, todos unidos pelo mesmo sentimento: orgulho em fazer parte de uma trajetória que já formou 622 geólogos e ajudou a escrever capítulos fundamentais da geociência brasileira, inclusive na região de Carajás, no Pará.

A reportagem do CKS Online conversou com personagens que marcaram essa história: o professor Laécio Cunha de Souza, atual chefe do Departamento de Geologia; Carlos Augusto de Medeiros Filho, o Cacá, integrante da primeira turma e referência em Carajás; e Kalyne Cota, geóloga da turma de 1998 que se tornou liderança feminina em um setor historicamente masculino.

A visão de quem construiu o curso

O professor Laécio Cunha de Souza, egresso da própria UFRN, mestre pela UFPE e doutor pela Université Catholique de Louvain (Bélgica), hoje comanda o Departamento de Geologia. Ele lembra que o curso nasceu em 1975, impulsionado pela necessidade de aprofundar o conhecimento sobre as jazidas de scheelita, petróleo e pegmatitos da região do Rio Grande do Norte.

Da esquerda para a direita
Em pé: Ronaldo, Heitor e Cleice
Abaixo: Paulo Varela, Cacá, Zé Maria, Laécio e Marcelo

“Foi a pedra angular no desenvolvimento científico em áreas como mapeamento, petrologia, geoquímica, geoprocessamento, geofísica, geologia econômica e hidrogeologia, especialmente na Província Borborema”, afirma.

Segundo ele, o maior desafio inicial foi convencer as autoridades da Educação a criar o curso, superado com apoio de nomes como o professor José Salim e do então reitor Domingos Gomes de Lima, que garantiu infraestrutura e laboratórios. Desde então, a UFRN consolidou-se como referência, com egressos espalhados em universidades, na Petrobras, no Serviço Geológico do Brasil (CPRM), em empresas de mineração e no setor ambiental.

Ao longo de cinco décadas, os resultados são visíveis: o curso ajudou a estruturar pesquisas de petróleo e gás, consolidou programas de pós-graduação de excelência e formou profissionais que hoje atuam em frentes estratégicas — do pré-sal à transição energética.

Com orgulho, Laécio destaca que, em 50 anos, 622 geólogos foram formados pela UFRN. “Não há nada mais gratificante do que contemplar o sucesso dos nossos egressos. A caminhada tem sido longa, com muitos obstáculos, mas seguimos firmes no caminho das pedras”, relata emocionado.

Cacá: pioneirismo e referência

Entre os protagonistas da primeira turma está Carlos Augusto de Medeiros Filho, o Cacá, figura respeitada até hoje na geologia do Pará e em especial na região de Carajás.

Carajás 2002 – Acampamento Tupy

Ele recorda a experiência como enriquecedora, marcada pelo entusiasmo dos professores e pelo apoio da UFRN em garantir viagens de campo que moldaram a formação prática e teórica dos alunos. “Formamos uma turma solidária, que tornou esse período um dos mais felizes de nossas vidas”, relembra.

Após a graduação, Cacá construiu uma carreira de quase quatro décadas na DOCEGEO/VALE, atuando principalmente na Amazônia. Como geólogo e geoquímico, participou de descobertas fundamentais em Carajás, incluindo depósitos de cobre, ouro, níquel, manganês, ferro, alumínio e platinoides.

Carajás 2010 – Cacá, administrando aula de campo

Sua atuação fez dele uma referência incontornável. Até hoje, o nome de Cacá é lembrado com respeito no Pará, tanto pela contribuição científica quanto pelo profissionalismo que marcou gerações. Caca segue compartilhando conhecimento no Canal Geoquímico, espaço dedicado à difusão da ciência, crônicas e da experiência acumulada em campona Amazônia.

“Tenho a consciência de que vivi na região de Carajás um período histórico magnífico na geologia mundial. Além das descobertas, os anos na Amazônia me ensinaram a ter uma forte consciência ambiental e um amor infindável pela região”, enfatiza.

Kalyne Cota: liderança feminina e inspiração

Se em 1975 a turma de Cacá inaugurava o curso, duas décadas depois a turma de 1998 revelava outro marco: Kalyne Cota, que se formou como única mulher entre os concluintes daquele ano.

Turma UFRN de 1998

“Ser a única mulher naquela turma tem um significado específico. Representava a predominância masculina da profissão, mas também já desenhava um movimento de transformação, com a entrada de mais mulheres na geologia. Sinto orgulho de ter feito parte — e ainda fazer parte — desse movimento”, destaca.

Os desafios, porém, foram muitos. Kalyne relembra episódios de preconceito de gênero que marcaram o início de sua trajetória. “Havia uma cultura de que geologia e mineração eram trabalhos para homens. Muitas vezes me designavam para funções administrativas, enquanto o campo era considerado ‘coisa de homem’. Precisei reafirmar minha fala várias vezes e apresentar argumentos técnicos mais extensos para ser ouvida”, relata.

Superando obstáculos, ela construiu uma trajetória sólida e hoje ocupa uma posição de liderança na Vale Metais Básicos, em Carajás. Para ela, essa conquista simboliza resistência e superação. “É a confirmação de que fiz a escolha certa. Ser espelho para muitas mulheres geólogas, mães e líderes é uma responsabilidade que assumo com orgulho.”

Kaline Cota – Carajás-PA / Projeto Igarapé Bahia

Kalyne também reflete sobre a importância da formação na UFRN. “Além da excelência técnica, aprendi a ter paixão pela profissão, responsabilidade e empatia. São valores que me sustentam até hoje como profissional e gestora.”

Às jovens que sonham em seguir esse caminho, ela deixa um recado firme: “Sejam as melhores no que fizerem, para que o conhecimento se sobreponha a qualquer estigma. Não desistam, mesmo diante de dificuldades desleais. Aqui fora, estamos abrindo caminhos para vocês.”

Um futuro de desafios e oportunidades

As comemorações dos 50 anos foram carregadas de emoção. Professores fundadores, ex-alunos de várias gerações e atuais estudantes se reuniram para celebrar uma história construída com ciência, dedicação e paixão pela geologia. Homenagens a docentes, funcionários e pioneiros marcaram os dias de festa.

Olhando para frente, o curso se prepara para novos desafios: pesquisas em energias limpas, hidrogênio verde, inteligência artificial aplicada à geociência e exploração responsável de minerais estratégicos como lítio e terras raras.

Para o professor Laécio, a mensagem é clara: “Aos alunos, não há outro caminho senão estudar com afinco, dominar línguas estrangeiras e manter ética e respeito. Aos professores, cabe se atualizar constantemente e exercer o tripé ensino, pesquisa e extensão com humanidade. O resultado será sempre um profissional competente e confiável.”

50 anos de história e a caminhada continua

Cinco décadas depois, o curso de Geologia da UFRN não apenas formou centenas de profissionais, mas deixou uma marca profunda no desenvolvimento científico e econômico do país.

Histórias como a de Cacá, pioneiro e até hoje respeitado em Carajás, e de Kalyne Cota, símbolo da presença feminina e da liderança em mineração, mostram que a geologia da UFRN é feita de pessoas que transformam conhecimento em legado.

“Seguimos firmes no caminho das pedras”, resume o professor Laécio. E esse caminho promete render muitas novas descobertas, conquistas e histórias nos próximos 50 anos.

Créditos Redação CKS online
Fonte: CKS online