Crônicas Geológicas – Orgulho Vomitado

CRÔNICAS GEOLÓGICAS

Por Cacá Medeiros Filho*

Orgulho Vomitado

Participei, recentemente, de uma conversa sobre aspectos geológicos da Serra do Cururu, na região de Carajás (PA). Como consequência, lembrei-me de momentos vividos nas duas vezes em que trabalhei mais continuamente naquela estrutura geomorfológica.

A Serra do Cururu corresponde a um relevo em forma de platô, com topo relativamente plano e encostas íngremes. A diferença de cotas topográficas da base para o cume fica em torno de 400m. Subir essa estrutura, caminhando por picos topográficos que a cruzavam transversalmente, se constituía em um notável exercício, árduo e extenuante.

O meu primeiro trabalho no Cururu aconteceu durante os primeiros anos como geólogo. Era um início de ano com um rigoroso inverno amazônico. Com a invernada, o solo dominantemente argiloso tornava-se constantemente escorregadio, dificultando ainda mais as caminhadas ascendentes e descendentes.

O objetivo principal do trabalho era o mapeamento geológico e amostragem de trincheiras escavadas no platô. O acampamento de campanha tinha sido construído na base da serra, às margens de uma grota, afluente do igarapé Maranhão, que, na época, tinha o leito bastante danificado por trabalhos de garimpagem aluvionar.

Fui apresentado ao técnico Maurício Café, que me acompanharia nas atividades prospectivas. Café era um valoroso e diligente trabalhador, elogiado tanto por seu desempenho técnico, como pela facilidade de trabalhar em equipe. Tinha a característica de ser muito calado, especialmente no relacionamento com superiores e com pessoas que não conhecia. Com o tempo, tornamo-nos bons amigos, mas naquele primeiro contato trocamos apenas palavras mínimas e necessárias.

Pela manhã, bem cedo, iniciamos a subida para o topo da serra. Eu estava vindo de férias e me encontrava completamente fora de ritmo, sem a forma física adequada para esse esforço. Café, calado, seguia em frente, e eu procurava segui-lo, na mesma cadência. Poderia – mas não queria dar o braço a torcer – pedir para efetuar paradas de recuperação. Não o fiz e, com orgulho e muita dificuldade, mantinha as passadas atrás de Café que, em silêncio, prosseguia, sem nenhum problema, em seu caminhar.

Cheguei ao topo nas últimas das minhas condições físicas. Com ânsia de ar, embrulho no estômago e pernas bambas, só consegui me aliviar quando vomitei, expelindo todo o meu orgulho e estupidez. Café, preocupado, disse que não parou durante a subida porque eu não tinha solicitado. Explicou, inclusive, que em todas as picadas havia pelo menos dois locais com o mato limpo na sua lateral, que a peãozada tinha construído para providenciais descansos.

Nos outros dias, os exercícios matinais de subida foram tranquilos, quase agradáveis e, sempre, com as pausas nos apropriados estacionamentos.

(*) Carlos Augusto de Medeiros Filho (Cacá) trabalhou como geólogo-geoquímico por 41 anos na região amazônica.

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