Por Cacá Medeiros Filho*
Andando em Círculos
Chegamos ao meio-dia no acampamento, almoçamos e seguimos para o campo. Pretendíamos, assim, adiantar a programação.
A equipe era composta pelo capataz Viana e o técnico Jaci, responsáveis pelo levantamento geofísico, e por mim, que os ajudaria, além de fazer o mapeamento geológico. Era um serviço de detalhamento. As picadas estavam espaçadas, entre si, em apenas 100 metros. A sistemática era trabalhar uma linha topográfica e, no seu final, abrir com facão um varadouro para a outra picada e, assim, iniciar um novo levantamento. Pretendíamos, nessa tarde, concluir o trabalho em quatro linhas.
O varadouro, entre linhas, não corresponde a uma picada limpa e reta. Consiste em um caminho aberto apenas o suficiente para permitir a nossa passagem. Nesse caso, a ação era facilitada pela pequena distância entre as linhas, pelo terreno relativamente plano e pela experiência de campo da equipe, especialmente do capataz Viana.
Ele – Viana, um caboclo, tinha crescido no mato. Nessa ocasião, já somava mais de vinte anos de trabalhos em empresas de pesquisa na Amazônia. Era um profundo conhecedor da floresta e um profissional sério e concentrado em suas atividades.
Naquela tarde, já tínhamos concluído três linhas e, consequentemente, feito dois varadouros. Assim, iniciamos normalmente a abertura do terceiro e último.
Depois de gastarmos um tempo um pouco maior do que os anteriores, chegamos em uma picada que, de imediato e surpresos, constatamos que era a mesma linha da qual tínhamos saído. Concluímos que a “culpa” havia sido da mata mais fechada que provocara a nossa desorientação.
Decidimos, então, retornar um pouco na picada e começar novo varadouro em um local em que a mata aparentasse ser menos densa. Chegamos em uma picada confiantes que estávamos certos. Enquanto eu e Jaci descansávamos, o Viana caminhou um pouco na linha, para confirmar, por um piquete, que estávamos realmente corretos. Ele, entretanto, voltou com a má notícia: continuávamos na mesma antiga picada. Parecia impossível.
Iniciamos intrigados, e quase que imediatamente, uma nova tentativa. Como das outras vezes, o resultado foi decepcionante. Estranhamente, retornamos para a picada original. Estávamos cansados, embaraçados e decidimos voltar para o acampamento, até porque já era perto das 17 horas.
No retorno, discutimos, principalmente eu e Jaci, sobre o inesperado acontecimento. As explicações técnicas eram difíceis e, por gracejo, colocamos como causa uma brincadeira do Curupira. Os amazônidas têm grande respeito e medo do Curupira, que tem como uma das suas artes, fazer com que as pessoas se atrapalhem e percam os seus caminhos.
Nessa discussão, Viana permanecera quase sempre calado. Parecia envergonhado ou, mais provavelmente, estava pensando e reverenciando as místicas figuras da selva.
(*) Carlos Augusto de Medeiros Filho (Cacá) trabalhou como geólogo-geoquímico por 41 anos na região amazônica.